terça-feira, 19 de setembro de 2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A Via Láctea estava tão bonita...



Era dia 24 de fevereiro de 2014, domingo, por volta de uma da tarde, e o céu estava nublado. Lembro que a casa estava em festa, como se soubesse que a sua chegada traria luz àquele ano infernal. Você representou o inesperado, desde o primeiro momento que tocou este mundo. Sem nenhuma precedência de linhagem de cor, você veio negra, pele lisa, fina e brilhante, e pelos de veludo. Vimos-te rasgar a placenta de sua mãe, sozinha, de olhos fechados e surpreendentemente caminhar. Ficamos embasbacados, porque você já havia sido anunciada em sonho. E conforme a música e a alegria de te ver se tornar real, nós éramos Flamengo, e finalmente tínhamos uma “nêga” chamada Teresa. Você parecia uma pintura impressionista, de tanta vivacidade de beleza. Diferente dos outros filhotes, você não ficou com sua mãe canina. Você me escolheu. Quando eu te peguei, você passou as patinhas perfeitas nos meus braços e não me soltou mais. Acho que Deus te mandou canina porque eu tinha que te ter nessa vida, e talvez não possa. Enquanto os outros brigaram, você manteve a calma de não se envolver em confusão, porque você sabia que era ali que você deveria ficar. A partir de então, olhar para você era só alegria. Acho que você tinha um despertador incansável que tiquetaqueava no seu peito sem parar. Nunca vi criatura com mais vontade de viver. Você era completamente feliz e ativa por existir neste mundo. Acho que na verdade você sabia que o tique-taque era um cronômetro, marcando 3 anos, 3 meses e 18 dias. Um, dois, três e já. Ter você na minha  história foi como assistir à passagem de um cometa. Foi intenso demais, você era minha metade, eu contava os segundos para sorrir com você, e foi muito rápido. As demasiadas convulsões, injeções, medicamentos, nunca te deixaram desanimar. Você continuava a caçar, a correr, a brincar e a me fazer carinho. Tenho que dizer que você era a criatura mais doce também. Por isso, no dia de sua morte, quando te vi estática, fiquei tremendamente assustada. Eu sabia que era o fim. Que você tinha atingido seu limite. Vi sua alegria de viver se transformar em luta para continuar vivendo. E não poderia ser diferente do seu ritmo. Tudo demorou menos de 24 horas. Rápido e dinâmico, como tudo que você fazia. E seu último olhar me dizia: mãe, eu não quero ir. O que me arrebenta é que eu não pude fazer nada. E também que o nosso cubículo é tão grande que não me cabe mais. Não cabe meu sono, não cabe minha paz. Tem outras coisas que não entendo também. O porquê do sonho, o porquê de tão rápido, a dor imensa de perder tanto em tão pouco tempo, do falso milagre que me fez acreditar que Deus tinha me ouvido dessa vez, a efemeridade da vida. Se já estava complicado, agora meu coração é um vazio espacial. Tudo tanto faz. E eu morro de saudade todos os dias, dos seus olhos que sorriam, das suas patinhas abraçando meus braços, de você comer meu sapato ou o papel higiênico, do seu cheiro de suquinho de uva e das suas lambidas enxugando minhas lágrimas. E eu que sempre quis ver um cometa, agora posso dizer que peguei carona na cauda do mais bonito que já existiu. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O preço.

Trilha sonora: Cigarros e Capitais - Esteban


Cresci ouvindo minha avó materna dizer uma coisa que só entendi o significado hoje, num clique: "Meu pai era muito bom, só tinha um defeito (Era Alcoólatra). Se não fosse isso seria perfeito. E Deus não faz ninguém perfeito." Por falar em pai, hoje é aniversário do meu, mas hoje o texto não é sobre isso. Vamos falar das confluências que a vida me trouxe para entender o que minha avó dizia e traduzir em uma frase do Cazuza.

Essa música da trilha sonora... muito interessante. 

Criança, a gente aprende que o cara virá em forma de príncipe, crescemos esperando e imaginando este grande momento. Na adolescência, o príncipe cai do cavalo e, talvez, o príncipe nem seja príncipe de fato, seja outra coisa. A figura fantasma do príncipe assombra tanto aquelas jovens que você chega à vida adulta exigindo o mínimo possível de uma vida a dois e pensa que já viu de tudo. Tudo que queremos é "paz e alguém pra ajudar a lutar a guerra". Mas aí... esse tal de amor te engana de novo. Na realidade, ele faz a gente mudar. "Eu quis casar, fazer os filhos, ter problemas." Alguns mudam a cor do cabelo, deixam de jogar bola, passam a preferir ficar em casa. Mas o amor adulto grita, estapeia a face, arde de ciúmes e só existe por meio de algumas condições: "Só, se...".Na verdade ninguém entende ninguém. Todos estão à espera do momento em que o outro ceda, conceda até atingir aquela projeção. Isso eu já sabia. Quem não? 

Mas o que eu entendi hoje, que é o que minha avó queria dizer, é que esta condição de transmutação completa ou perfeição plena é impossível de ser alcançada. Porque sempre haverá algum cisco, um teto de vidro, um calo, que você não conseguirá mudar. Parece que a condição do amor sempre esteve apoiada à este pequeno detalhe. Quando você não mudar isso, as paredes cedem, a casa racha, a vida desmorona. Não sei se é esse pequeno detalhe que segura nossa identidade verdadeira, a essência individual, ou se não mudamos porque é sacanagem mudar tudo mesmo. Tem de sobrar algo de si. Mas pensa numa coisa poderosa e que incomoda pra cacete o outro... "Até tentei mudar, parar logo de fumar, mas cigarros são poemas, pra quem nunca sabe o que falar." Mudo tudo, menos isso. Por que será que isso não? Esse pequeno desvio sempre será o estopim de qualquer separação. Ou irá compor os epitáfios nas bocas populares quando você se for.

Qual é o seu? O do meu biso era o alcoolismo, do cara da música o cigarro, e o meu é uma amizade que eu não posso ter. Nem era para ser assim, mas eu precisava ter esse ponto de estopim. Pago eternamente ao universo, um erro que cometi no passado. 

Acho que aquela carta estava errada. A única verdade é que o amor é sofredor, mas ele se irrita, suspeita mal, falha sempre, não crê, não espera, não suporta. O amor faz a guerra, mas não luta. Talvez o de sangue... Talvez. "Eu tenho quase 30 anos e só queria ter paz." E o que você quer?

Éh.... Cazuza, vó,  "o amor na prática é sempre ao contrário". Como se´r ao amor na velhice?

P.S.: Noites atrás tive um sonho. Acho que estava no céu. E nós 4 comíamos e sorríamos juntos, em torno da mesma mesa, em paz, compartilhando a juventude que ainda resta em nós e a amizade plena que Deus nos deu. Lá não havia "Se", ou qualquer detalhe que causaria uma fatalidade. Podíamos ser nós mesmos e os erros estavam verdadeiramente perdoados. "... tinha gosto de amor, sem o medo da dissolução do amor". Quando eu morrer, quero viver em um lugar assim.