sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


Ontem a noite minha barriga doeu de tanto dar rizada junto a uma amiga. Ontem a noite meus olhos incharam de tanto chorar com, para e por outra amiga. Ser humano é essa coisa tão desigual... oposta... essa coisa de paz e guerra, fome e gula, riso e dor... essa coisa de Deus e demônio, por vezes bem misturados e outras bem heterogêneos. Um homem de um jeito, completa outro homem de outro jeito. Falo isso por uma perspectiva cósmica que me permite achar graça nesse caos. Pelo olhar de Deus até a dor faz sentido e encaixe. Mas se visto bem de perto o ser humano é fábrica de razões e emoções em busca do equilíbrio e tem o poder de, em cada passo que dá, matar ou morrer um pouco mais ... ou ser lanterna para os que vêm de mãos dadas. A mão dada pode trazer um punhal ou permanecer enlaçada, caminhando do lado... Ser humano não vive sozinho, foi feito para reconhecer um grupo... por mais que o conjunto seja unitário. Para escapar do erro que é conviver, acabamos por precisar uns dos outros infindávelmente. Abandonam companheiros no passado e com o coração mesmo em pedaços, transplantam-se para dentro, fora e cima de outros companheiros... na busca insesante por gigantes maiores para inspirar, admirar, evoluir, sugar e apoiar quando o chão sumir. O chão é dado e tirado por homens e suas situações. O homem é essa coisa que alguém queria muito apagar, um arrependimento... e simultaneamente essa força propulsora que faz alguém levantar no dia seguinte, um abrigo de sonhos. Homem que constrói castelos de sonhos e os destrói com a mesma facilidade. O amor sem o homem seria nada. Nem a doença, nem a saúde, nem a história, nem o ódio, nem a tristeza, nem a alegria. Nada. Homem-cansaço, homem-vergonha, homem-decepção, homem propaganda de Deus. Homem pequeno e cheio e vida... homem grande e vazio e morte. Morte é a coisa mais fácil. Como é fácil morrer! Homem-frágil. Homem-fúria. Homem-forte que move moinhos.. Homem-mortal, obra-perpétua. Homem livre arbítrio escravo do tempo. Homem-preciso, descartável. Homem-insubstituível, esquecido. Homem-matraca, que silencia. Corpo e alma que usa, abusa é usado e usado. Homem-sexo, tesão de pureza. Homem tudo e nada, tudo ou nada, tudo por nada, nada por tudo. Ligado a mim, a você ... leitor-escritor. Platéia, coral, palco, banda. O homem não vive sozinho, mas feliz de quem cultiva a solicitude. É dependência conquistando independência e jamais deixando de depender. O homem quer ser eterno e a eternidade só existe se for comentada, documentada, esparramada como tinta que cai ao chão. É uma graça desgraçada ter que conviver todo dia sendo humana e tendo humanos. O homem é toda dor e a alegria que vive em mim. Homem melhor sono quando sonha junto. Homem poro, gemido. Homem insônia. Loucura tênue na sanidade, por que não enlouquecer? Quem ainda é normal? Metade do meu amor que me faz inteira por sofrer, me obriga a viver e me mata até o dia que eu morrer pra sempre.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sobre o afeto.


Afeto é a batalha diária a favor do perdão e do perdoar e a insatisfação rotineira de querer dar mais que ontem e muito além do que se tem por natural... como um grito que tomasse conta de todos os espaços disponíveis no mundo e ecoasse pelo resto da eternidade que discute a infinitude ou a mortalidade do universo... que é muito maior que um ser que ama, mas talvez seja menor que um grande amor.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Auto-patrimônio histórico da minha humanidade.





Hoje a moça da faxina chegou cedo. Acordei sob um céu de espirais rosas e com a voz mais doce me falando ao ouvido. Embaixo desse espiral rosa eu amo o caos e a calmaria de todas as facetas da vida. eu estava com saudades da moça da faxina, é sempre bom conversar com ela e além do mais, agora os cachos que ela sempre teve fazem mais sentido para mim. Acordei bem sonolenta e pronta para o sempre fabuloso café-da-manhã de sábado. Pus-me a perguntar com qual frequência faxino minha alma... porque se minha alma for o reflexo que vejo na minha casa... ai, ai, ai. A moça vai ter muito trabalho hoje. À medida que a gente envelhece vamos ficando mais cansados, descrentes, desleixados... e quando percebe-se estamos com a casa e a alma pesadas de entulhos, escombros. Aqui em casa, quando eu olhava ao redor, assistia um bucado de coisas inúteis, poluindo minhas paredes azuis e mesmo assim na hora do desfazer-me delas, a disposição se escondia de mim. Acho que esse acúmulo era minha consciência implorando alguma demonstração externa que não me deixasse esquecer que se eu não faxinasse minha alma, ela seria cada vez mais esse acúmulo de coisas desagradáveis e dispensáveis. Mas o que me chamou atenção foi que a moça interessou-se por meus entulhos. O que era desnecessário a mim, era necessário a ela e foi preciso uma intervenção externa, bem escancarada para que eu me desfizesse do relicário da minha preguiça. E são tantas as vezes que nossas emoções desenrolam-se dessa forma.. por vezes nos sentimos como uma casa velha, abandonada, feia e desinteressante... assim, nos colocamos como entulhos cuja única função é atrapalhar outros caminhos e observar os passantes, estáticos, inertes. Mas daí, sem aviso, passa alguém que nota os entulhos e mais que isso, necessita de todas as emoções e detalhes nossos que julgamos não ter mais utilidade. É para isso que servem os anjos de carne e osso e calças jeans... os gogantes que não nos deixam cair. Reciclar. Reutilizar. Reconstruir.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Turyia é um bom nome para corujas.




Seja bem-vinda de volta, insônia minha. Da última vez sua visita foi demorada, me custou. O sono é uma dadiva, é a expressão do descanso quando se está em paz. Uma das coisas que mais me deixam fascinada é um ser humano com olhos fechados... é incrível como o ato de dormir deixa que até o bandido exale inocência. Cada ser que dorme, experimenta a sensação da concepção... como um feto inocente, raso, aquecido no útero materno. Os olhos fechados, nesse momento, não carregam a morte nas pálpebras... mas sim a graça de poder ausentar-se do mundo dos vivos por alguma horas e acordar num novo dia, que pode ser mesmo novo. Como quem nasce, ou renasce. Dormir é romper o cabo que nos liga à realidade. É lindo observar alguém que repousa e ver a criança deixada na infância vir à tona para brincar de fazer sonhos dentro de um semblante tênue e leve, num mundo onde tudo é posível e verdadeiro. Dormir é mesmo um dom... tão natural e poderoso quanto o respirar. O que seria de mim se não mais respirasse? Um corpo frio que não pulsa e que, por partir, nada altera no sentido da sociedade humana. E o que é de mim quando não durmo? Dizem que a causa da insônia é dificuldade de abandonar a si mesmo. Talvez ( digo talves porque tudo parece ser de sal, prestes a desmoronar no próximo instante), mas talvez seja isso mesmo. Meu "eu" está em apuros, e ele é o náufrago que eu não posso abandonar nesse mar de ilusões. Seria a assinatura final do pacto com a escuridão, e eu odeio morrer. Meu "eu" pede socorro, corre perigo. Como salvá-lo? Me irrita o fato de ter que trabalhar amanhã com o corpo, sendo que a alma não vai nada bem. Nunca consegui desvoncular corpo de alma; tem gente que é bom em maquiar-se, dividir-se, camuflar-se. É fim de carnaval... o calor vai dando lugar à chuva... e é início de Quaresma. A insônia veio com data marcada, propensa à reflexão e mudança. Eu amo dormir... amo meu quarto escurinho, minha fronha do Mickey e meus sonhos de travesseiro. Por ser tão gostoso isso de quarto, acho que os chamaria de recompensa. Alguma coisa tem de mudar por aqui, para que eu seja merecedora do descanso. Enquanto isso, velai corpo meu ... não desista de pulsar meu coração cansado... até que sua alma esteja de pé, colorindo tudo com as aquarelas abundantes que vêm da saudade que eu sinto de mim.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A hipocrisia de cada dia nos dai hoje.




Afinal é carnaval. Todo mundo vira palhaço mesmo, um pouco fantasiado. Esquecemos os rótulos do dia a dia, as virtudes, os valores .... e todo mundo cai na mesma roda de samba. Viva o ato de suportar quem se odeia e até cantar uma marchina juntos, por que não? Nesse carnaval quero agradecer em especial aos sorrisos maquiados e àqueles que falam uma coisa e fazem outra. E tenho uma dúvida: por que usar fantasia para quem quer nos despir depois que a folia passar e manter-se sem fantasia para quem, depois da folia, antes ou mesmo agora se nos encontrasse nu... estenderia um mundo de manto e protegeria nosso frio, nossa vergonha, e os confetes muito bem recortados? Que isso minha gente! carnaval a gente pode esquecer. Esqueça tudo, como se o passado simplesmente nunca tivesse existido. Qual sua fantasia? Qual baile você escolheu dançar? Será que vestindo essa fantasia você finge ser quem não é por quatro dias, ou é exatamente vestindo uma fantasia que tua covardia encontra coragem para se mostrar? Aproveitem essa oportunidade anual de beber até cair, lançar palavras a esmo renunciando o poder que elas exercem sobre as emoções humanas... Só cuidado com os disfarces, eles podem querer durar até depois da quarta-feira de cinzas. O disfarce pode enojar o estômago e nem todo lugar é propício ao vômito. Tem gente que é carnavalesco nato, sabe? Aquele moleque da escola que continua a fazer piada mesmo após tudo ter perdido o sentido, morto nas bocas caladas? Tem gente que faz de todo dia um verdadeiro carnaval. Um brinde à vida descartável!

Fé.


"Não estou interessada na indústria dos seguros. Estou cansada de ser cética, a prudência espiritual me irrita e fico entediada e exaurida com o debate empírico. Não quero mais ouvir isso. Estou pouco me lixando para prvas, demonstrações e seguranças. Tudo que eu quero é Deus. Quero Deus dentro de mim. Quero Deus brincando na minha corrente sanguínea da mesma forma que a luz diverte as sombras." (Liz Gilbert, em Comer Rezar Amar)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

To search..


- Estava olhando minhas fotos antigas. É engraçado a forma que tomamos em cada fotografia, não sei se com todos é assim, mas em cada retrato me torno uma pessoa... que se procurarmos em outra fotografia de mim, não encontraríamos pessoa igual à da outra imagem. Acho que conversar pouco vem do fato do meu corpo escancarar tudo que eu sinto por si só. Observei que em minha última fotografia, as pessoas estavam coloridas em pleno show de rock e eu saí cinza, destoei de tudo... e não foi pra fazer justiça à ocasião e aos choros das guitarras. Mesmo encantando o externo, desencatei-me de mim, despedaçando como quem quer derreter. Se eu derretesse agora, seria em fluido transparente. Acho que na verdade faz muito tempo que meus olhos não sorriem junto com minha boca.

domingo, 31 de janeiro de 2010

'Bhuta ia, Dewa ia'




Finalmente encontrei no emaranhado de palavras dos livros meus uma frase que sintetiza o que penso sobre as coisas de bem e mal: - Bhuta ia, Dewa ia. (...) O homem é um deus, o homem é um demônio. Sempre acreditei que o ser humano é a casa de Deus. Que seria inútil eu buscá-lo num bando de templos, quando eu ainda não o tivesse encontrado dentro de mim. Deis está no local mais íntimo e inexplorado do que chamo de eu. É como se por baixo de minhas entranhas, tecidos, vazio... existisse uma pedrinha muito bem escondida que tem como caminho uma exigente disciplina, desapego material, amor inciscriminado e ação para o bem estar alheio. Quando aingirmos esse local entramos em total contemplamento, sorrindo e nos aceitando com toda parte do corpo, amando e enxergando a beleza tanto no caos quanto na calmaria. Êxtase. Paz. Colo de mãe. Creio que esse Deus que criou os homens e nos livra do desespero diário de ter que suportar o tempo, mora dentro de cada homem e mulher. E é por ele que aquela mulher enfrentou o homem que iria estuprar a criancinha de 4 anos, ou por ele que o amigo pulou na água para salvar o desconhecido que estava afogando, ou a moça abraçou a amiga com o coração despedaçado de amor rompido... essa infinitude de compaixão, atruístas é bem verdade, contudo espontâneas é o homem deus atuando extremado. Por algumas vezes essa grandeza de um Deus pode cegar o homem. e assim, brincando de deis-que-tudo-controla ... o homem deus tornou-se Hitler achando que o mundo deveria ser mais puro, e a impureza estaria na figura dos judeus... O ser humano ao brincar com a natureza, esqueceu-se de um grande detalhe: a natureza, assim como ele, também é habitada por Deus. Esqueceu-se que o ser humano, contudo, além de er habitado pelo bem, também abriga o mal dentro de si, por isso torna-se finito, mortal, frágil. E a natureza, repleta somente do bem e da beleza da paz e do caos é infinita, imortal. Um terremoto mata milhares de homens. A natureza não só sobrevive a um terremoto, como torna-se ele mesmo. Então como o mesmo homem habitado por deus, que atua com bondade pode estuprar um bebê de oito meses, assassinar o companheiro da mesma espécie por conta de dez reais, arrancar a pele de esquilos vivos e os matar de dor por isso... desviar o dinheiro que seria para alimentar o pobre a fim de comprar um carro importado? Tenho certeza que esse homem não foi mau durante a vida toda, mas houve momentos de bem e de mal. Algumas religiões colocam a culpa em espíritos malignos, que vêm de fora e tomam posse do corpo de um ser humano, levando-o a fazer o mal. Nunca fui de acreditar muito nisso. Se Deus e Diabo são rivais, opostos de igual poder sobre nossas ações, então ambos deveriam pertencer a uma mesma dimensão, sendo atingidos por caminhos em direções opostas. O Cristianismo prega que Deus está dentro de nós, assim como religiões orientais. Mas entra em contradição quando canta "Vem,vem,vem...', inflamando os fiéis a chamarem algo que vem de fora para dentro. Daí, de repente, eles falam que os espíritos que nos tornam maus, estão do lado de fora de nós. E tudo fica muito confuso. O que eu estou chamando então? Essa mania de colocar culpa no outro é nossa maquiar nossa responsabilidade sobre os fatos que podemos controlar. E a herança desse costume é refletido nos nossos relacionamentos. Exustem acontecimentos inexplicáveis na vida, que não dependem de nós. E os sentimentos que isso tido desperta na gente é tão incontrolável quanto esses fatos, mas nossas atitudes... aquilo que fazemos como o que a vida faz de nós é totalmente de nosso controle. O 'capeta' é aquilo tudo que você vê no seu rosto e na sua consciência quando olha no espelho. E deus é tudo aquilo que você olha no espelho também. Antes de expulsar sei lá quem de você, que tal refletir sobre o que fazer para ser uma pessoa melhor? Acredito que todos os homens nascem com a vocação igualmente espaçada tanto para o bem, quanto para o mau. Essa instinitividade selvagem, num mundo sem leis estaria escancarada num espetáculo que eu não gostaria de pagar para ver. A crueldade humana cada dia me prega um susto maior, e a bondade também. Ambas podem ser grandes demais. É por isso que deixei de ser libertária extrema e me tornei a favor de rédeas... não sei até onde poderíamos chegar. tanto no bem, quanto no mal. Como é bom ser chamada de babaca quando, apesar da oportunidade de vingança, escolhe-se plantar uma semente de perdão e paz. Antes de mudar o mundo é preciso domar o mundo gigante de maldade e bondade que há em nós mesmos. Já somos muito complicados e o que há por fora são bilhões de mundos igualmente pesados, bons e maus quanto o seu. É mercadoria demais. Um pouco do caminho para chegar-se na pedrinha de Deus é passado pela educação que recebemos, pela religião que praticamos, pelas leis de onde vivemos, pelo amor de quem nos cuida e, por fim, pela digestão que você faz disso tudo que lhe é transmitido. Por isso minha amiga, não se assuste mais quando eu gritar: Eu sou o capeta!

sábado, 23 de janeiro de 2010

Lightning bugs.




E se eu realmente me divertisse? E se eu realmente sorrisse? E se eu finalmente gostasse? E se eu me permitise errar por dois dias? Não me julgue. Não me condene. Não me destrua. Não me faça desistir. Fora do meu costume mora o erro. E se eu conseguisse me permitir?Talvez a felicidade esteja, seja no final de um erro, o final de um erro. Nessa estrada quero correr de braços bem abertos na batida dessa canção de primeira vez, acalentada pelo vento. Talvez essa seja a estrada da vida e eu uma gaivota acostumada que voa pelo céu de liberdade. Esse é o meu objetivo. Isso é o que me traz aqui. Sem culpa abro os braços e caio nos seus abraços que já foram meus, que foram levados e a vida me trouxe de volta. Você entende esse ciclo estranho? E essa sensação de bem-estar? E esse conforto de lar? Nós estamos realmente sorrindo. Isso merece um brinde de limão. Já reclamamos da chuva juntos. Mergulhamos nesse tédio em gotas. Agora molhamos nessa mesma chuva, de mãos dadas, em gotas de contentamento.Estar com você é como essa sua virada periódica de cabeça, à procura de uma supresa, de que algo aconteça na inconstãncia dos seus olhos. Veneno anti-monotonia é dádiva, como somente um amigo de infância pode ser. Será que nos conhecemos de vidas passadas?Mas nós não acreditamos em reencarnação. Essa presença de assuntos, essa tagarelice... Pode ser o jeito que a gente armou de descobrir nossas coisas em comum toda vez, como sempre. Esse silêncio não seria paz, seria uma maquiagem evitando escancarar nossas verdades internas. Sabemos nos ler, sabemos de nós. Acho que não assumir isso é manter o encanto. É como os fogos que voam no escuro que se você olhar de perto serão pequeninos vagalumes. A ilusão é mesmo fundamental. Deixando-me usar e ser usada sem escrúpulos, dessa vez pinta a novidade no ar. Aventurar-se é arriscar, estar disposto, questão de foco. Eu quis ser eu, separada. E sendo só eu rompi meu trauma, meu ego,
meu preconceito, minha dúvida. Você quis cair de braços na provocação. Estalar a línga e sentir o gosto do ciúme. Abrir um machucado em si e nela talvez na tentativa de que ela, machucada morra dentro de você. As estradas têm curvas e esquinas, têm os acasos e os sustos que deixam as pêlos arrepiados. O beijo no rosto repleto de significados veio na hora certa. O ponto final que traz de volta à realidade, para casa, para o equilíbrio entre a podridão e a santidade. Só que dessa vez estamos batizados na mesma água gelada de cachoeira. Um olhar dói. Agora estamos os três latejando. Será que a dor não é um aviso de pare? Uma súplica de prestar atenção em eu e você?
Em que você acredita? Quais são os seus valores? O que ainda vale a pena? Do que você está cansado? Nunca fiquei realmente só. É meu desejo mais secreto. É meu desejo mais temido. Será que você vai me deixar ir?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sobre caras e coroas.




- Sinto ter chegado a minha hora de escrever sobre a tão complicada fidelidade. Não é porque eu tenha certeza absoluta sobre sua definição, mas porque a sombra e o corpo desse valor andam tomando minha intuição, que eu aprendi a não ignorar. Isso deve servir para alguém, sei lá.

Comparo a fidelidade à uma moeda e suas duas faces. Não porque existe o traído e o traidor, isso para mim são conceitos para vítimas, criminosos e beatas com sede de condenação. De um lado dessa moeda está a fidelidade fazendo sentido, do outro lado, quando ela não faz.
Segundo o dicionário Aurélio, fiel é digno de fé, leal, honrado; que não falha; com o qual se pode contar; exato em fazer as coisas; verídico, verdadeiro; e por fim ... fio que indica o equilíbrio de uma balança. Infelizmente costumamos relacionar fidelidade somente a relacionamentos amorosos, restringindo seu significado a não beijar outra boca ou amar outro corpo além do seu parceiro rotulado. Para mim esse pensamento é limitador, o gesso que reforça a suspeita de que ainda somos muito mais primitivos do que pensamos. Me enojo com essa fidelidade altruísta, forçada, que acontece só porque disseram que tem de ser assim. Pensa-se em uma fidelidade de posse, como uma máscara para auto-afirmação, dando exclusividade de usofruto de outro corpo e alma loteados. Vigia-se o celular, os contatos virtuais, os passos, os costumes... como os capatazes vigiavam a escravidão. Sou pássaro, e essa coisa de alguém querer ser dono de mim só porque mandaram ser assim nunca funiconou. Só fui fiel a partir do momento em que soube pelo quê, em que valesse a pena espontaneamente, sem contratos assinados.Já estive dos dois lados dessa moeda. Quando a verdade é recíproca, há ausência de máscaras, e ama-se até a parte podre do sujeito ou objeto que desperta a vontade de ser fiel. É o oposto da fissura óssea ou das ondas destrutivas, quando as duas metades fazem bem uma à outra. Quando não há invasão de privacidade justificando a desconfiança. E como se houvesse aceitação mútua das diferenças, e mais que isso... como se essas mesmas diferenças fossem a soma, a multiplicação do placar do crescimento incomum despertado pelas coisas boas. É o prazer de todas as coisas que você gosta, cumprido com a pontualidade dos seus deveres. Tem a ver com competência cega. É quando a falha desperta o imediato pedido de perdão, e esse pedido é sempre atendido de boa vontade. Quando os pensamentos não precisam ser filtrados por medo de distorções ou sentimentos invasivos. Quando o objeto ou sujeito pelo qual se é fiel é lembrado com respeito, admiração, saudade, sem a dúvida sem resposta de estar fazendo a coisa certa ou não. É quando voa-se em busca de sonhos, mas retorna-se sempre ao mesmo lugar, e esse lugar torna-se seu refúgio. É a concentração e o sacrifício espontâneo. Podemos ser fiel ao regime, à uma religião, a um time, a uma banda, a um lugar, a uma idéia, a um sentimento, a um hábito, à família, aos amigos, a um parceiro ... é quando você está apaixonado e só encontra encaixe e delícia no beijo que sai da boca de seu amado. Retomando o que diz Aurélio... fiel é o fio que mantém equilibrado os doi lados de uma balança. Só metade do funcionamento da coisa é de responsabilidade sua. A fidelidade humanizada exige recompensa, reconhecimento. A gente tem mania de achar que merece algo em troca quando fazemos algo difícil. Quando não há recompensa, ficamos perdidos na impressão de que tudo que fizemos é em vão. Fidelidade não é um contrato. É uma demosntração espontânea de devoção e cuidado. Jamais haverá satisfação altruísta. Porque fidelidade é feita por duas metades, e como diria até a Bíblia... é impossível servir a dois senhores ao mesmo tempo. Cá para nós que ser fiel é idealizador, exigência sobre-humana demais para essa natureza instintiva. Portanto é óbvio que ser fiel é extremamente complicado. É uma luta diária contra a selvagria de si mesmo. Exige determinação, perseverança e certeza demais nessa abstração toda. Exige atropelamentos diários em busca pela ausência de falhas e epela lealdade absoluta, na espécie que mais erra e permite-se errar. Quando um dos lados da corda afroxa. A fidelidade passa a não fazer sentido. Daí em diante, toda infidelidade é justificável, pois a falha acontece de ambas as partes. Se você não tem outro parceiro além do seu não quer dizer que a infidelidade não vá rondar sua calma. Ser fiel implica coisas muito além do mundinho de um relacionamento a dois. Como diria Oswaldo, cuidar de amor exige mestria... respiração, senso, tato, e uma dose larga de compreensão. Da cara até a coroa custa-se uma volta. É um ciclo, como o cio ou a água. Que vai e volta. Passando pela ausência de infidelidade e fidelidade, caindo até na inércia total. O importante é condizer com a divindade que mora em ti em cada parte dessa roda. Antes de ser fiel ao outro, será que você anda sendo fiel consigo mesmo?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Não era criatividade minha.




Ando nas ruas do centro
Estou lembrando tempos
Enquanto lhe vejo caminhar
Aguando a calçada
Um barbeia um velho
Deita a noite e diz poesia (serenata)
Vinho enquanto ouve choro costurar

Passei em casa, seu Zé não estava
Memórias Senhor Brás Cubas Postumavam
Enquanto vi passar Helena pra casa de chá
Devagar, bonde na praça

Ainda borda delicadeza
Torna a gente banca de flores

Libertando sorrisos no ar...
(Carta - Ano de 1980 - Vanessa da Mata)

Nem se atreva a me pedir para conter essa lágrima agora. Seu asfalto já me viu chorar várias vezes. Eram lágrimas frias, de saudade, de incerteza, de um desejo que parecia distante. Eram lágrimas que vinham de longe, trazendo o frio irlandês, fazendo-o brotar através dos meus olhos goianos. Meus olhos só queriam ser goianos mesmo, estar no centro, mas nada disso faria sentido se meu coração não estivesse batendo aqui, junto a mim. Lembra-se das tantas vezes que subi essa ladeira, pedalando forte, sob um sol infernal das 4 da tarde? Ah, como essa parte doía! doía não só por uma das coisas que eu mais odeio nesse mundo que é a sensação das coxas queimando devido as pedaladas para conseguir concluir uma subida de asfalto...mas doía porque nesse exercício desenfreado, exausto havia uma súplica, uma esperança de que você estivesse chegando a qualquer momento... passando pelo trevo de entrada da cidade e me sorrindo com palavras de amor. Depois de constar que ainda não era hoje, mas talvez amanhã... descia essa avenida , grávida de sonhos e promessas de que eu voltaria amanhã, para te esperar. E eu esperaria quanto tempo for. Mas espera machuca pra caramba, não é mesmo? É para isso que serviam as lágrimas e todas aquelas canções berradas nos meus fones de ouvido. Era para suportar, e eu suportei, até mesmo o atraso. E hoje, seis meses depois, estou sentada aqui, nessa mesma avenida, embaixo do mesmo sol escaldante. Queria que você soubesse que o seu céu continua belo, dando espetáculos vespertinos e que é muito bom estar aqui de novo, respirando seu calor abafado. Mas hoje eu choro outra vez, e não me peça para parar, por favor. Deixe-me desabafar, através de lágrimas incontidas a alegria imensa de correr em teu chão novamente. As lágrimas agora são quentes, a saudade só aumenta, e meu desejo também. É que depois de tanto tempo vou subir essa avenida, só que agora... por milagre, benção divina, o motivo da minha agonia e espera estará ao meu lado. Ela atravessa a rua e vem em minha duração. Tenho que ir agora. Senhoras e senhores, um brinde à 'tarde linda que não quer se pôr'.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Pertencer.


Cada um tem seu baú, o meu é bem pequeno, com madeira clara, meio desgastada, todo trançado, como se fosse uma cesta que trouxe flores. Sempre gostei de coisas pequenas, parece que elas carregam uma paz singela, o conforto e aconchego de um lar. No fundo desse baú achei um papel de contrato. Rasguei. Cortei os votos, as assinaturas e as testemunhas, afinal um negócio apoia-se naquelas letrinhas do papel. Na verdade o papel era meio encardido, coisa de tempo... raridade para poucos sobreviver a anos que contam as duas vidas geradas por meio dele. Olhei em volta ... tudo ainda estava lá. Decidi queimar o papel. Tudo ficou no lugar. Sabia que eu já soube de histórias que as coisas dissolvem? Isso é quando os fatos e o acordo é só teórico, aquela coisa forçada e calculada que me causa alergia. Essa matemática não sobrevive às coisas da vida. Mas com meu bauzinho foi diferente. Um cara que vive batucando me convenceu que é porque o acordo só foi assinado para encantar o que já era belo, louco e real. Me disse que as assinaturas que importavam eram só as do jardineiros que ficaram responsáveis por aguar aquela florzinha do amor dia após dia. Assinatura alheia não culminaria em construção alguma naquela caixa, talvez só em destruição. Na borda da caixa tinha um mapa, que cabia o mundo inteiro e espalhava cada coisa do baú em todo canto, mas mesmo assim os corações sobreviviam, continuando a bater compassados. Que Deus uniu, ( nasceram os filhos, partiram animais, pariram netos, chegaram outra bicharada...) e o homem... bom, o homem não deveria separar! Caramba Deus... tudo bem que o senhor me fez meio confusa, mas essa parte ouvi muito bem daquela estrela de onde vim!



No final das contas e das fases, eu-hippie, eu-skatista, eu-roqueira, eu-eu... e todos os outros que virão sempre escolhem voltar para esse baú e dentro dele nem um rótulo é necessário. Por que escolher um baú e não um casulo? Essa é fácil! Casulo é aquela coisa fechada, como um coma, uma semi-morte, que te evita a vida como um todo, tristezas e alegrias. O baú não. A tampa abre Deus, e te vomita na vida, dá injeções de ânimo e de repente você já está dando os primeiros passinhos rumo a tudo que pulsa fantasticamente cheio de dor e delícia, fora do baú. E daí que se você encontrar algo bom na curva , sorte sua! Certamente você desejará seguir em frente! Mas e se você achar uma coisa feia? Aí a coisa complica! Um casulo não se reconstrói uma vez rompido, a lagarta vira borboleta e pronto. Mas a tampa do baú fecha ... e abre... e tem aquele espelhinho no canto, sabe? Aquele que eu olho e vejo minha cara de menina, com cabelos curtos e pretos, sorrindo como quem está prestes a aprontar? De tudo que eu vi e vivi nesse tempo tenho saudades... era o esperado para uma canceriana cuspida... e só com meu baú posso voltar, mesmo com 18, 25, 50 anos... nesse tempo lindo, como uma máquina do tempo. Encontrei no fundo do baú um soldadinho de chumbo... foi o único príncipe que encontrei nessa vida. Lá fora não achei nada nem ninguém que parecesse pelo menos com a unha do meu homenzinho. Foi ele quem me ensinou a lutar contra meus dragões, pescar, encontrar paz nos livros, nos filmes e nos cantos dos pássaros. As mãos dele são gigantes, sempre maiores que as minhas me dão um colo de proteção inabalável. Agora o soldadinho envelheceu. Príncipes não deveriam envelhecer, isso não é justo! Como eu, a menina das mãos pequeninas, vou proteger ele, o homem das mãos gigantes? Nunca foi assim, Deus. E agora não sei como fazer. Do seu lado havia uma rainha, com lindos fios dourados e mutante como trocas de roupas. Ela, ao contrário dele, era mais real que ideal. Ou não, depende da sua lente de contato. A rainha toma da fonte da juventude, o tempo passa e ela fica mais jovem. Sabia que ela é linda e adora falar com o Senhor todo dia? Ela te visita sempre, adora cantar e eu soube por aí que ela se importa muito comigo. Agora ela vestiu uma roupa, que confesso que não lhe caiu bem. Preferi a tendência passada... aquele vestido-que-criava-o-bolo-delicioso-com-requeijão! Tá metida com umas falsas-realezas, e eu ando buscando seus olhos... o Senhor, que é conhecedor de todos os corações, me dá notícias deles? Na mesinha de madeira existem oito lugares e a mesa está sempre posta em ceias de Natal e almoços de domigo. Cada um senta-se com seu melhor sorriso, escolhido rigorosamente pelo comitê da memória. Do lado do soldado e da rainha tem aquele vagalume verde, que tece fios e luzes e mora perto das cachoeiras que saíram dos Seus dedos. Seu bum bum ilumina meu caminho inteiro... e tem aquela joaninha cacheada, vermelha e preta de teimosa e de flamengo... que cuida dos doentes... essa daí já é o sorriso mais bonito que eu conheço. Tem a Janis Joplin de voz gostosa, minha companheira de pilates e de sol... e a mini Janis Joplin do Cerrado. Achei também um bicho de bochechas fofas, que não sei se é urso ou cachorro, só sei que é meu maior e melhor sonho realizado, minha alegria de cada manhã. E por fim uma barbie, docinha e azeda, o glamour hollywoodiano e escandaloso que me faz gargalhar e enfeita a caixinha. Tenho tantas fotos coladas aqui. Tantos lugares colecionados... Ainda sobra espaço para o tempo que ainda me resta. E eu amo cada cantinho desse quadrado, até aquele arranhado ali e aquele aculá... Alguma coisa não tem anadado bem por aqui. Ouvi um terremoto ou boatos de uma epidemia contaminando meu relicário. Pra cá voltei rapidamente. Acho isso confuso porque foi por uma carta sua que me pus a caminhar por esse mundo como se ele fosse um segredo. Até que gosto dessa minha missão na vida. A coisa funciona como meu alimento. Doutor estou com náuseas, será que é fome? Como poderei caminhar com fome? Como minha força pode ser também minha fraqueza? Se o baú sumir, para onde vou voltar quando estiver cansada? E esse forro de mesa sujo, é pra quê?


A mão direita do canhoto. A aids do Cazuza. O whisky do alcóolatra. A diabets da infância. A orelha diferente por trás dos cabelos longos. Ando doendo, Deus. Como vício, doença, restrição,impotência e ponto fraco. Será que o Senhor poderia salvar meu baú? Amém!



- Out of luck, out of faith, loosing my memory, saving my face...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A quem me ensinou a desenhar carneirinho...



Em primeiro lugar devo dizer que só seus olhos lacrimejantes foram capazes de calar o Vinícius, e em segundo lugar gostaria de dizer que o texto está escrito em verde porque você odeia verde.
Eu gostaria muito de te dizer que eu vivo porque te amo, mas não posso. Seria uma mentirada só, sujeira das grandes. Porque, amor, eu sempre vivi antes de você aparecer. Minha história não precisou esperar até você para começar a ser escrita. O que eu posso te dizer, sem falsidades, é que eu te amo porque estou viva... e até que vivo melhor depois de ter me apaixonado por você. Seus cachos me troxeram luz e se você partisse hoje... bem, se você partisse hoje eu continuaria a viver mas faltariam as coisas que faço por causa desse amor e essa falta me deixaria um buraco enorme e triste, eu teria de inventar algo que desviasse minha atenção da cicatriz grotesca que seria viver sem você. Quando te olho vejo um clamor constante por provas de amor... isso se chama insegurança. E confesso que às vezes fico chateada por você não acreditar em mim. Mas sabe, que na verdade, meus dias também têm sido camadas de alternância entre "o meu amor é retribuído" e "não, o meu amor não é retribuído"? Pois é meu bem, hoje decidi agradecer ao noso Cara pela insegurança depositada em nós que não nos deixa ficar parados no que é cômodo. Tomara que essa insegurança dure pelo resto da vida cheia de sonhos que quero viver ao seu lado, porque é graças a ela que buscamos a cada segundo algo que nos faça ter um pouquinho de mais certeza sobre esse sentimento complicado. Acho que ela pode até ser um daqueles venenos que o Cazuza procurava, que seriam capazes de curar a monotonia da vida, sabe? Porque não ter certeza é fundamental para reinventar maneiras que não te deixem duvidar do meu amor, e vice-versa. O inseguro nos traz a euforia que só as novidades conseguem despertar. Sua importância na minha vida atingiu a escala que acusa todos os dias ao seu lado como memoráveis, gravados em mim com todos os detalhes das coisas que faço questão de não esquecer, arquivados na categoria das minhas delícias. Ter notado que não vivo por você me mostrou que você é o motivo das coisas mais importantes que a vida em si, como por exemplo as coisas que deixam meus dias coloridos. É por você que ando à meia-noite nessa cidade deserta... não diria sem medo, mas enfrentando esse meu medo do perigo e desencadeando em mim uma reação corajosa de admitir e enfrentar os outros. É por você que todas as canções de amor ( que são nossas) desenham seu sorriso travesso em cada esquina da minha pista de treino. Por culpa sua entro emd esespero quando vejo as coisas da Alice, do Principezinho, da Palhaçada.. e desejo no silêncio enriquecer para te entregar toda essa beleza material que te arrancaria um sorriso grandão. E por sua culpa queria que as coisas fossem um pouco melhores. Fiquei meio 'perturbada' circulando por cada supermercado que entro à procura de cobrinhas azedas, creme de avelã e suco de pêssego... mesmo se não for pra comprar, só pra ouvir cada uma dessas coisas me dizendo que você as ama. Eu te amo um pouco por causa das coisas que você ama. Passei a ver novela das nove, porque a gente sabe que a bossa nova é um nó de um laço que nos une e é bom ouvir nossas semelhanças e depois lembrar do quanto somos diferentes e de como isso me faz crescer e querer te desvendar mais e mais. Eu assista TV também na espera de encontrar aquela personagem que se parece com você, e ver seu corpo tomando o lugar que era dela... lentamente.. alucinadamente... e agora é você que está lá, com seus gestos efusivos, seus movimentos dramáticos, sua risada debochada e sua voz rouca. Outra coisa que me faz te amar mais um pouco é essa voz rouca. Quando sinto alguma dor, lembro de você ter vencido o receio de olhar nos meus olhos e imagino o quanto deve ter doído em você escancarar sua alma e aceitar a minha por completo, então sei que depois da dor vem a beleza e assim a enfermidade fica bela e logo passa. Por você aprendi a conversar no celular e até aguento um pouco a queimação nas minhas orelhas devido às nossas longas conversas. É com você que durmo pregada sem me incomodar com espaço pequeno e suor que me fazia coçar. Ou também com você que acordo às 6 da matina com humor de quem acordou às 10 e a disposição de quem coemte um crime e tem de fugir para não ser pego. Foi por você que decidi sentir prazer ao ser tocada e com quem tive a-melhor-virada-de-ano-do-mundo. É do seu suspiro de afago de menina mimada, que parece um gatinho que sinto falta escrevendo esse texto. Você é minha gargalhada preferida das nossas falhas de português. Poderia comer cachorro-quente na praça todo dia com você sem reclamar, e se a gente enjoasse poderíamos procurar um novo sabor e devorar com todo apetite de primeira vez. Por falar em comer, mais uma coisa que amo um pouco em você é sua bagunça na mesa, sua boca lambuzada de molho, sua frescurite-fiscal-alimentar e sua preguiça de exercitar-se comigo. Amo um pouco também a pinta que você quer tirar.. e os beijos que distribuo no seu rosto, e em sua boca quente e depois no seu corpo inteiro. E acho o máximo a paz que eu sinto quando ficamos quinze dias sem brigar. Bem... as outras coisas que eu amo em pouco em você talvez eu não queria dizer e existem outras que ainda desconheço. Mas não se preocupa que quero descobrir todas e para isso dispus meus infintos dias. E que cada dia seja uma prova de amor.
- Amor sopra minhas costas queimadas que eu quero cuidar do corte no seu pé...

sábado, 2 de janeiro de 2010

Sem esse gosto de sabão na boca.




É claro que eu não deixaria de escrever um texto de ano novo. Novo não, pois não haveria muito o que escrever sobre um ano recém nascido além de desejos e anseios. E acho que não haveria muita dificuldade em encontrar escritos sobre esses desejos universais em todo canto. Então vamos falar do que já foi escrito, do que me torna um indivíduo, daquilo que chamo de minha e de vida. Senhoras e senhores, eis aqui um texto de ano velho.


Quase mandei 2009 ir embora a custa de ponta pés. Não aguentava mais. 2009 foi longo demais para ser chamado de 2009, por isso clamo às letras para chamá-lo de 'doismilenove'. A soma de seus algarismos resultam em 11, e esse número só me lembra dia 11 de setembro, torres gêmeas, destruição. E esse é o símbolo do meu 2009, como um parto, uma guerra, minha vida foi varrida, parindo uma entrada dolorida na idade adulta. Como todos os anos, ele também nasceu bebê, em meio ao caos da minha depressão pós reprovação no vestibular da UNB, seguindo de minhas numerosas dúvidas de escolha profissional... por fim acabei rasgando meu diploma de futura jornalista, sem descartar o caráter provisório da coisa. Pois é muito cedo para ter-se sentença de granito de tamanha responsabilidade. Arranjei um trabalho que chamei de primeiro emprego, e cá pra nós que a semi-escravidão não me fez nada bem. Engordei. Chorei. Surtei. Larguei. Com apoio incondicional da minha mãe e minha irmã. Descobri que sou uma pessoa mais econômica que pensava. Apliquei os valores de honestidade ensinado por vovô e vovó e gostei disso. Tomei nota de que o orgulho é o valor mais idiota e ausente de função que o homem já criou, e a partir de então atropelo o meu sempre que posso. Depois virei a única coisa que profetizava nunca ser na vida: professora. É claro que isso me deixou num conflito imenso sobre minhas verdades e minha impotência perante os fatos, resisti ao máximo, porém a loucura maior foi ter me apaixonado perdidamente pela profissão. Pasmei ao prestar vestibular para letras, vestibular que sonhei no Sul, adaptei para Brasília e acabei fazendo de fato no meu berço goiano. O mais surpreendente é estar aguardando a aprovação em ritmo empolgado, mesmo após tantas adaptações de sonhos e conceitos. Foi um ano sem melhor amigo, que cruzou meu caminho de volta no final num reencontro que serviu como assinatura para deixá-lo ir. Acho que talvez o término das coisas também possa ser um destino, e assim como aceitamos as coisas que ficam é preciso aceitarmos também as coisas que vão com tamanha beleza e fé. Isso lembrou-me de outra coisa: continuo me perguntando se já amei de verdade ou não, mas enquanto me decido vou amando do jeito que posso. De novo. Adoro repetir isso... outra vez. Saber que fui capaz de amar de novo e recosntruir sonhos me deixou com um frescor gigante de liberdade que posso tentar explicar. É algo como... se depois do susto de assistir tudo que você acredita ser demolido porque o amor que era para sempre acabou, estava te fazendo mal ... você visse surgir um grande martelo que quebrasse as correntes que te mantiveram presa ao comodismo de coisas vividas pela metade, e você corresse como quem descobre que tem pernas, corresse muito e mais rápido e chegasse a um lugar que pudesse chamar de seu e admitisse que apesar de diferente do outro, também era belo e cheio de cores e perfumes. Criei coragem para cortar franja. Hoje agradeço pela oportunidade, pela honra de ter feito parte finalmente de alguma coisa na história mundial através do contágio de uma pandemia. Obrigada gripe suína! Obrigada por eu ter sobrevivido para contar depois! Na calmaria consegui emagrecer. Apaixonei-me por meus colegas de trabalho. Conheci lugares que com certeza me levaram pertinho de Deus e seu céu ( um brinde especial à fantástica cachoeira Rei do Prata). Descobri que gosto das minhas unhas bem coloridas. Minhas delícias foram marcantes nos livros que li, nos filmes que vi e nas músicas que ouvi ( não posso me esquecer também das belas apresentações de balé). Vivi amizades que talvez sejam as mais fortes da minha vida. E, como ' a hora do encontro é também despedida', doí com seus respectivos afastamentos com a mesma intensidade dos sorrisos compartilhados. Ainda não sei se são amigos apertados em 'pause' ou 'stop'. Colecionei novas cicatrizes, celebrei datas marcadas e me despedi de várias outras coisas, pessoas e sentimentos. Meus 18 anos mudaram bastante minha vida, é verdade que de forma diferente do que se espera, mas de fato aconteceram mudanças. Um brinde ao ano de entrada dessa coisa adulta, desses mitos desfeitos e reelaboração de crenças. Dói pra cacete mesmo, não vou mentir. Doismilenove foi a crueldade humana escancarada, que desencadeou sustos, lágrimas e decepções em mim. Foi aí que eu parei de acreditar que todos os homens podiam ser bonzinhos algum dia, e resolvi lutar só por mim mesma e deixar de carregar o peso do mundo nos meus ombros ( mais ou menos). Foi triste ver que o preconceito ainda é muito maior do que eu idealiza em meu mundinho, que a escola é a maior propaganda da hipocrisia e da segregação social, que julgar ainda é tendência de todas as estações e que a futilidade ainda impera entre e muito mais próxima de nós. As noitadas, geralmente me deixaram gosto de incompletude, tendo como ápice minha esquisita e totalmente esquecível festa de aniversário. São erros que não desejo repetir. Protagonizei uma cena cinematográfica no aeroporto, e me senti muito bem depois que percebi que aquilo acontecia na minha vida real. Termino esse ano como quem está parada na borda de um poço assistindo um balde afundar, cheio de agonia, indo embora... levando anjos, lembranças e o crescimento pelo sangue derramado. Regredi na aceitação de mim, cheia de esperanças num ano cuja soma de algarismos resulta em três. Três é meu número da sorte. Que o terrível 2009 me faça notar um maravilhoso 2010.


Adeus meu caduco, deixe comigo seu Cazuza e a revolução... porque mesmo odiando a morte essa é sua hora de padecer. Senhoras e senhores, gostaria de propor um brinde porque eu sobrevivi! Ponto final.



P.S.: Não deixem que o conceito de família caia em desuso.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Motivo.




Será razão? Para alguém que nunca soube ser racional e só, não significaria isso. Seria então a união do que é razão, cega pelas sentimentalidades. O cordão umbilical que mantém unido o corpo, a alma e a condição de estar vivo.Mas cordão umbilical é involuntário demais. Aquilo que chamo de motivo é voluntário, vem de vontade, de querer abraçar a vida e devorarcada circunstância de forma intensa. Já fui assim, de me achar meio morta... e na verdade ainda guardo essa inferioridade em vestígios ... e então ele me chamou de Vida pela primeira vez. Veio da boca do meu melhor amigo, aquele da fronha do Mickey. E percebi tão claramente que Vida era o que eu queria ser, transmitir, transpirar ... carregando em mim uma energia que fizesse amor com todas as partes de meu corpo e tocasse cada criatura a ponto de começar a melhorar as coisas ao redor de mim. Ele pegou uma trilha diferente da minha e nos perdemos um do outro. Foi complicado cair no vão e ter que suportar aquela falta de luz e chão sozinha. Me tornei algo como gelo e rigidez. Por sorte ( ou não ) caía na cratera de entrada no mundo de Alice, aquela do País das Maravilhas. Eu que já fui assim meio morta, fui chamada de vida pela segunda vez... e isso gerou uma responsabilidade e uma gratidão gigante em mim, como dois contrapontos... que geraram uma resistência sobre humana na tentativa de manter esse gelo e essa rigidez. Intactos. Não sei o porquê exatamente, mas ainda tenho medo de ser feliz demais... daí me mantenho em metades, cursando dois trilhos e não sendo inteira em nenhum dos dois, que é pra não me entregar completamente. Mesmo nessa covardia, o chamado de vida incomodou como uma mordida no ombro. Voltaram as cores, os perfumes, as borboletas, a vontade de ser, transmitir e trsnpirar vida. Estava quase dando certo eeu precisei arrumar um jeito de te agradecer pela ressurreição. Chamei-te de motivo, causa voluntária que me faz querer estar viva e viver muito bem. Daí você me matou. E conheci mais uma parte de mim. Os pontos, realmente viram reticências. E agora caio num vão gogantesco em busca de algo que me leve de volta ao que éramos nós antes do perdão, algo que me remeta à vida que você soprou em mim algum tempo atrás e não me deixe esquecer que amor é uma coisa boa de sentir. Sigo, contudo rígida e gelada. Mas esse algo que me leva adiante, espero que guarde um retorno dentro de sua cartola mágica. Será isto um ciclo? E se for, que retorne logo ao ponto de origem, nem que este esteja do outro lado do oceano. Pois nesse distanciamento de estar perto, a camada fria alarga-se rumo ao absoluto. Agora és meu motivo oposto. Causa involuntária rumo ao contrário de vida. Zero. Eu não quero cicatrizar.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Coisas para se dizer a um estranho.






Queria te dizer que seus cabelos em carcóis circularam a luz do dia, como se seus centros fossem a fonte de tudo que ilumina. Que de todos os espirais que cruzam meu caminho, teus cachos foram os mais belos. Nossos espirais crescem juntos como corpos adolescentes. E sei bem que também és tornado. Quem dera se você soubesse que tua pele é mais que clara, faz-se branca e branco é a cor da paz. Não percebes que tens a paz em si? Pois como um paradoxo,você foi silêncio que calou a avenida à suas costas. E será que essa infinitude de pintas desenhou-te uma capa fria e morta... quente e viva... Não senti. Sei que uma gotinha de suor deslizaria por ela sem grandes obstáculos até atingir o chão. Será que nesses lábios pequenos e pálidos caberia um beijo ardendo em paixão? Agradou-me muito teu jeito de fazer bom uso da fala mansa e comum, de humanidade que saiu desses mesmos lábios e não vomitou bobagens, elaborando cada frase como quem evita um desperdício importante. Como eles comeriam? Aposto que em mordidas pequenas e demoradas... como quem ama comer. Queria te dizer que tuas roupas largas dançam num tom delicado, esparramadas em teu corpo esguio... contudo, seu baile não remete a uma orquestra, nem tampouco a sapatilhas pontudas... dançam mesmo como quem anda sobre rodas, descendo e subindo ruas... E as mãos ainda guardam impressas as dobrinhas de bebê, como àqueles anjos impressos em artigos de papelaria. Olha como quem olha para baixo, após uma desilusão... vagam banhados em dor, berrando interrogações, com sede de algo como vingança ou clamor de quem teve os sonhos roubados e despedaçados. Ah! Se soubesses que teus olhos destoam da suavidade de tua obra... fazendo-te moldura abstrata renascentista.Queria dizer-te que você foi a beleza que me despertou de um longo período de sono. Que foi você o meu salvador da feiura, como um tapa que arde no rosto mostrando a beleza.Pura. Que ainda existe. Não deixe que teus cachos derretam na fumaça de teus labirintos. Cuida-te estranhamente por mim, como quem não se conhece e nunca mais se vê.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Às palavras escondidas em tua língua.


Depois de ver que não havia mais um rosto de criança no espelho, a menina Amélie achou um jeito de gostar disso. Bateu a mão sobre a mesa e exigiu por fim, uma pausa.Fez da pausa sua calma, e mais uma de suas primeiras vezes. No seu casulo, pediu para que algumas coisas se repetissem na tomada de sua memória: para morrer de saudade, pegar o que houve de melhor e vomitar o que pesava seus ombros. O novo foi compreender finalmente o vocábulo 'passado', sem precisar do amigo dicionário... e com seus dedos cancerianos, decidiu ser sempre saudosa para não romper com a tradição, mas decidiu também que libertaria seu passado, como se engolisse um remédio em direção a paz de ambos. Amélie apertou 'stop' em diversas ervas-daninhas, e em coisas que lhe corroiam e lhe afundavam olheiras, escondendo seus olhos ( que ela até gostava). Os dedos afinalados, porém ainda curtos, tomaram o mundo pelas mãos e ela o chamou de seu, conseguindo subir no palco com o gosto fantástico da solicitude conquistada. Notou que os botões daquele espetáculo só encaixavam nas pontas de seus dedos. Naquela vida que era dela, ela era insubstituível. Com a lição aprendida, a garota caiu em devaneio quando chamou essa persepção de egoísmo e quase desistiu... mas lembrou-se de não se cobrar por isso, e do caminho percorrido até a solicitude. Manteve-se firme. Martelo. Prego. Lacre. Tinta. Lixa. Serra. Reforma. Abertura. Tomou os seus com a certeza absoluta de quem ama, aconchegando-os sob suas asas. Asas não de um anjo. Amélie jamais fora anjo, e duvido que gostaria de ser assim chamada. Mas asas de um convite a um mundo onde sabe-se exatamente onde está, e pode-se ser o que é. Um mundo também colorido, que assim como o seu também é ' um museu de grandes novidades'. E que assim como o seu e exatamente por isso, amanhece cada dia como uma promessa.



(...)




E aquela noite finalmente cantara sua chegada e ela cogitou a indecisão de sempre, não fosse a saudade e o aumento das intensidades que fogem ao controle... Já não era confusão. Deixou-se tocar e ser tocada... venceu a si mesma, apesar da dor... Mais que isso, decidiu que ela também poderia sentir prazer nas coisas, e a partir daquela noite ela sentiu o prazer das musas dos poetas... rompeu com toda estrutura de pecado, negou a tudo que lhe trazia desmerecimento e socou diretamente o estômago daquela histeria. Amélie berrou na chuva, transpirando amor e silenciando de paz.






Ela tornou-se maestra, e apaixonou-se pela regência.





domingo, 6 de dezembro de 2009

Soul Keeper



"- Como se pode ter tanta coragem?
- O amor tem que ser mais forte que o medo."
.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Carta ao Cazuza.


Amigo meu,

resolvi escrever-te novamente e falar-lhe da minha mania de te colocar em meu lugar. Prega-se por aí que virtude é o contrário disso, colocar-se no lugar dos outros é compaixão... e o inverso, como se chama? seria fracasso?
O que você faria se sua vida tivesse mudado rápido demais a ponto de não condizer com nenhum sonho seu? Acho que você teria se drogado, feito amor, gritado por aí, tudo... menos fazer o que não fosse da tua vontade.Eu cresci com essa mesma energia que me permitia falar em tom claro que eu faria tudo da minha vida, menos desistir do que eu sonhava e me tornar professora. Achava uma chatisse falar a mesma coisa todo ano, como uma oração pronta e mais chato ainda ter nas pessoas meu objeto de trabalho.
Eu era sonhadora, dessas que acreditavam nas coisas, Amélia de revolução, quiçá prosituta, mas nunca a dona-de-casa.Poderia dizer que a vida me derrubou, mas sempre a vi como bela, ela não poderia me fazer mal algum... já o seu oposto, a falta dela, é capaz de destruir tudo que toca. E assim aconteceu. Recebi uma série de negações em sequência que podaram tudo que pulsava em meus olhos verdes e brilhantes. Fizeram meus sonhos mudarem de nome, passaram a se chamar ilusões. E não foi um prazer conhecê-las, porque num primeiro momento tive forças para fazer birra, mas se eu soubesse que depois eu me acostumaria, teria berrado muito mais.
Educação no Brasil é mesmo uma piada. Um bando de gente grande que acha que sabe das coisas socando uma sopa decorada de letras em alunos que não querem aprender nada. Tudo sem porquê, sem vontade, sem paixão. Tudo movido na direção de um dinheiro que você ganhará um dia. Daí você recebe diplomas de papel, gasta anos de vida entre quatro paredes e isso se chama educação.
Não bastasse meu fracasso veio junto a decepção. A corrupção é ensinada em sala de aula e camina lado a lado com a futilidade de adultos que deveriam ser nobres de alma antes de serem chamados professores. Por vezes estava fazendo o trabalho que é repetitivo e me afastava da situação pela perspectiva cósmica de Nietzsche... ri do meu ridículo: estava eu interpretando o papel de Charlies Chaplin em Tempos Modernos, plena revolução industrial no século XXI.,, num ambiente escolar. Os professores morrem de preguiça ou estão cansados demais para ler algum livro ou abrir a mente para novas idéias. A escola deveria ser laica, estimular o livre pensamento, e o respeito... pois é dentro dela que brota o preconceito e os moldes segregativos. Trabalho ensinando uma língua estrangeira para brasileiros que odeiam MPB, vestida numa camisa com as cores da bandeira da nação que mais mata, escraviza e separa a humanidade.
Não bastasse isso tenho procurado trabalar mais e mais, desperdiçar mais horas na ilusão de que está tudo bem. Esconder-me de decisões e conflitos que tenho de enfrentar, da felicidade que deixei para depois e o nojo de estar sendo uma 'professora', sem tempo, sem gosto, que aceitou a falta de vida.
No primeiro ano queria fazer relações internacionais, no sul do Brasil... que é a região que eu mais amo. Mas me disseram que lá era longe e caro demais, para eu mudar meu sonho para Brasília.Assim o fiz.Mais perto do vestibular me convenceram que eu era uma garota que estudava no interior de Goiás e relações internacionais era um curso muito concorrido para mim, seria melhor que eu tentasse um mais fácil. Mudei assim para o jornalismo, porque amo escrever... mas é um hobbie, uma delícia, não sei se como profisão teria dado certo. Pouco tempo atrás, com os planos todos alterados, uma liminar do STJ, mais uma vez o papo do custo de vida me fizeram desistir de Brasília e de todas as imagens que eu tinha projetado na capital do Brasil. Eu fazia 18,crescer doía e eu estava desempregada e pressionada. Pedi emprego na escola de inglês que me formara.
Aceitei meu salário mínimo e minha crescente carga horária que me tapava em seus números gigantes. O espiral foi desenrolando-se, as possibilidades passando despercebidas e eu aceitando tudo. Sem revolta. Como uma Amélia, dona-de-casa. Quiz dizer que me apaixonei pela profissão, diminuiria o peso da rotina. E disse. E até acreditei um pouco. Mas meus próximos sabem que não sei permanecer na mentira. O falso rompeu-se e eu desabava, me agarrando nos pequenos sorrisos das crianças que eu ensinava, para a queda ser mais branda. Se houve alguma verdade nisso é que sou louca por criança e esse amor só cresceu com a experiência.
Hoje enxaqueca, vômito e uma porrada de sonhos de travesseiro me fizeram acordar. E quando olho no espelho, pareço minha avó.


beijos, Amélie... des-pe-da-ça-da!

sábado, 7 de novembro de 2009

Sobre espirais.



O que te lembra um espiral? Confusão? Loucura? Espiral começa em um ponto e vai abrindo-se. Se a linha é infinita, as voltas e a abertura são infinitas. Quando nota-se, espiral vira labirinto e sem seu mapa ou coisa parecida em mãos ou sem a interrupção de seu desenrolar é complicado retornar-se à sua origem. Espiral, apesar de estar presente nos fascinantes tornados, têm se encaixado em outra categoria de minha vida: sobre as coisas que me instigam, avisam e assustam. Tenho mania de tratar coisas como sinais,e não é questão de falta de ceticismo. Não mesmo. É que fatos recentes me ensinaram a dar maior respeito à minha intuição. E esses sinais carregam mensagens em códigos para que essa venda sobre meus olhos seja arrancada e eu possa ver e sobreviver à órbita caótica na qual dou voltas. Talvez eles já estivessem lá, ou talvez fizeram-se agora em nosso diálogo... mas sua frequência não pode passar desapercebida. O primeiro espiral apareceu assim que fexei meus olhos e movimentei minha pupila como se olhasse dentro de meu corpo... lá estava ele, em meio à imensidão negra, era um monte de voltinhas em verde-água. Assustei. Fiquei tonta e mina cabeça doeu. Abri os olhos. E me esqueci. O segundo espiral veio em aquarela vermelha, na tela da minha televisão ... foi desenhado nas costas de um homem por dedos finos de uma mulher. Era uma história de amor que me encantara bastante. Trazia a vida que fazia bodas de papel, fragilmente em espirais. Esse espiral era o acaso, o caos das emoções numa linha temporal intransgredível e efêmera. Não voltava. Imprevisível. Etiquetado a ele vieram coisas simples e belas, que meus olhos tanto amaram algum dia... como uma pipa no céu. O terceiro veio num sábado de uma das piores semanas da mina vida... num sábado de ressaca pré-álcool, regado à vinho, belo céu e cinema ficcional infantil. Saíram da tela iluminada seis ou sete signos de luz em, adivinhe? Espirais. Não li nada muito relevante, mas a quantidade de espirais berrava: você deve nos perceber e decifrar, agora e já! De repente transformaram-se em um gigante ponto de interrogação, bêbado de medo. O quarto e o quinto estavam desenhados em meus lençóis e na almofada da cadeira onde ficam os edredons. Estavam no meu quarto, eram coloridos e eram meus. Meu medo desfez-se num segundo, restara só a interrogação. Mensagem? O sexto visitou-me numa tarde de domingo, que poderia ter sido amarela, mas o céu teimava em deixar tudo cinza... Era inscrito no chão e cercada de amigos, pisamos em suas voltas. Pisar. Esmagar o que está embaixo ( de que? ) e causar dor. Esse espiral era como a verdade que não queremos ver, mas mesmo não sendo vista sua verdade detonou minhas estruturas e arrancou tudo que eu chamava de amizade e me tirou os pés do chão. O espiral é meu guarda e não ia me deixar cair... trouxe amarrado a ele tudo o que eu deixei no passado ou o passado deixou que fosse embora de mim... o que era verdadeiro deu um nó em minha cintura e impediu minha queda desta ponta de agulha fina e quebradiça à
qual tento respirar. Laço em espirais. O sétimo está, agora mesmo, sobre minha cabeça... num céu azul, esbranquiçado por nuvens de espiral. Acho que este pode ser a assinatura do mensageiro dessa salvação. Deus, é você?
Entrei nisso por amor, com rosto de menina e liberdade interior de um pássaro. Um pássaro que sabia e gostava de voar, com valores e abitado por paz e luz. A vida era deliciosa. Eu era protesto contra rótulos e não-verdades. Eu era eu e gostava do que eu era. O início de um espiral, que fiz com minas próprias mãos. Não tive mestria para manter-me afastada da carniça que tanto detestava e me tornei parte dela. Acabei por emendar ilusão em ilusão e perdi o foco, o sonho, a inocência, a confiança nas pessoas, e a vontade de amar... e me perdi de mim. Parei de ver a beleza humana e dividi a humanidade em dois grandes grupos repugnantes de homens e mulheres que não se misturavam... separados por um muro resistente e alto. Inferiorizai uns, perdi certas oportunidades, enfiei-me no meu próprio preconceito combatido. E a vida foi abrindo-se em espirais assimétricos... de um tempo que não volta. E agora meu mundo desabou e apesar da dor, entendo que foi a única forma que me fizesse parar de tecer esse espiral sem fim... antes que não me restasse mais vida para sentir dor. Foi por amor que entrei e onde esse amor puro estiver, eu estarei. No mais, não sei o que fazer. Não estou nada bem. Não há luz nesse estômago que sente fome e dilata em úlceras. Sem fé. Com dúvida.
Ontem olhei no espelho e percebi que meu rosto de meninna está desaparecendo.
*** Henry corre na Via Láctea em busca da paz utópica do olho de seu furacão.

sábado, 31 de outubro de 2009


Você foi meu primeiro beijo no corredor de uma casa na manhã do meu aniversário. Você foi minha primeira vez num carro. Foi minhas primeiras e constantes brigas em cidade distantes. Foi meu primeiro abraço num aeroporto internacional e sua primeira vez numa casa de pedras. Foste meu primeiro banho de chuva no meu quintal cantado seu Cd. Foi meu primeiro término na nossa primeira ida ao cinema e a primeira vez que chorei ( desmanchei de chorar) no seu colo. Foi minha mancha de sangue numa camiseta branca. Você foi aquele primeiro e único dia inteiro juntos, nosso sábado. Foi meu pedido e resposta de sim, regado à keep cooler de pêssego, na sala de um anjo que quando o mundo ficou contra nós, só ela permaneceu. E foste a zona que fizemos naquelas almofadas. Você foi nosso primeiro jantar, semana passada e meus três meses de esplendor e queda. Você foi meu primeiro beijo numa sala vazia de faculdade, e meu primeiro porre de Heinekein. Foste meu primeiro céu alaranjado algodão doce... minha primeira corrida contra o tempo, pelo centro da cidade à meia noite de um sábado. Foi a primeira vez que passei um dia todo beijando teus lábios, sem pausa. Foste a quebra das minhas amarras com passado e a vitória de conseguir viver outra história de amar. Foste quem me trouxe vida, pelo proibido, pelas cores.. quem me fez acreditar de novo num tal de amor e todos seus preceitos, conceitos e promessas. Você foi a primeira dança no piso branco da minha casa, na sua primeira semana de retorno. E toda canção de amor que era nossafoi mais uma primeira vez da triha sonora que você cantou por mim pela voz de Nando Reis. Foi no seu corredor que não resisti a um último beijo. Foi em seu corpo que descobri a geometria dos triângulos, e foi na sua cama que senti sua respiração pela última vez. Por você tirei minha bermuda e até consegui ficar séria.Você foi a imagem de quem sabia das coisas que estavam por vir. Em você me enojei do drama. Foste o primeiro amor que senti raiva. Foi o primeiro a marcar meus punhos. Foi o primeiro a machucar-me por vontade própria e o primeiro que fez o medo real me corroer as veias. Foste o primeiro que desconheci. Foste a primeira intuição do errado. Foste minha libra e meu arrependimento do início. Foste meu contrário e minha contradição. E de tantas unicidades, particularidades e começos vividos ou que ficaram apenas no fabuloso País da Maravilhas, temo ter sido você, também, a minha primeira morte.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dia amarelo brasilidade.


Nos dias amarelos é esperado que eu sinta o conforto de um lar, de estar em casa, de querer estar ali e pronto. Nenhum outro lugar do mundo serve além do meu. Até hoje eu só tinha vivido dias amarelos em casa mesmo, com minha família. Amo dias amarelos porque sinto aquela sensação de intimidade e harmonia alma-corpo. Hoje foi diferente ... então eu poderia ter chamado de outra cor, mas escolhi o amarelo pois seus rostos e corpos ficaram lindos, iluminados e vivos pelo sol de um tarde de domingo, naquela avenida que prefiro anonimar que é pra não perder o encanto. Vocês estavam amarelas. E beleza maior não poderia haver. Acordar ao lado da Pry, com exatos 3 anos de amizade inexplicável ( isso é outra história ) me fez sorrir apesar da cara inchada pelas lágrimas e sombras de ontem e seus outros dias atrás. Ri, bebi, comi como se o tempo não tivesse passado e falei, quebrando meu silêncio. Como é bom falar com o coração e como faz bem ter um amigo-amado pra dividir o sono! Depois houve a quebra de esperar ... finalmente hoje consegui que meu amor se despisse olhando em meus olhos. A sensação foi mágica. Amei o que vi e francamente não cometi erro algum. Hoje você desembarcou,meu bem. Como é bom amar com o coração! Sinto hoje que aquilo que buscava externamente adentrou em mim e adeus saudades eternas! Nem é bom falar muito devido à minha desconfiança sobre coisas e fins. De pijama recebi a energia das ruas, trazidas por olhos desconhecidos e amigos. Maquiei-me da energia que aquela partida de futebol impregnara naqueles músculos aquecidos de suor. Como é bom estar rodeada de queridos e poder ser eu mesma. Pensando em novidade ... houve uma Flor e nossa sina de euforias. Fora a primeira vez que o acaso saíra de cena e abrira espaço para sentir de pertinho os olhos, a voz, os jeitos da minha flor. Eh... Raposa... estavas certa sobre cativar. Sente paz no lugar que mais me atribula e tenho certeza de que isso só foi possível devido aos corações vívidos da minha tribo. Já sentiu o amor guardado ... à flor da pele? Merecia foto, chocolate de café e essas palavras de liberdade que aquela revista me trouxe. Quero demorar a dormir para que a raridade não se esvaia, ou quem sabe porque foi hoje mesmo que acordei. Deito sob esse céu vermelho com o lábio meio-molhado inteiramente livre e encantado.



*** Serendipity é quando você procura uma coisa e encontra outra coisa melhor ainda. Coisa simples. Surpresa. A vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Gastrite nervosa crônica;


Há dias que a vida fica tão insuportável! Nesses dias não sei definir se o que fica extremado é nossa insignificância ou nossa superioridade. Tudo fica insignficante e ausente de sentido e levantar-se da cama custa. Os olhos pesam de um sono incontrolável, e ao deitar dormir fica impossível. Cada ação no trabalho, na escola... cada palavra, cada pessoa... parece vão, dispensável e o gosto disso tudo é muito mais repugnante que uma tonelada de doces engolidos de uma vez só. Aliás, nesses dias como bastante doce. Por pirraça. Por teste. Para ver se tal overdose supera o enjoo de estômago que a vida e tudo o mais que eu façi da minha me causa. Tal insignificância de todo esse cotidiano que me cerca me traz a imagem de um grão de areia qualquer, fragmentando-se em pedaços cada vez menores e menos significantes nesse universo imenso. Eu e meu nada. Eu medo de nada. Eu-nada. O lado paradoxal é que esse reconhecimento cósmico de minha pequenez só é possível quando há um afastamento da tragédia. E esse afastamento me torna diferente das outras criaturas, pois a coisa mais altruísta e solitária que há são nossas próprias percepções. E daí, quando estou longe, as outras criaturas continuam aqui, com sua vidinhas sem questionamento ( aparente ), percorrendo o caminho devido. Isso é superioridade. E por mais que ela seja tão insuportável quanto a insignificância, amabas coexistem. E sem haver sobreposição de formas, rio à distância desse espetáculo ridículo e debochado que é ser humano... e choro, com ou sem lágrimas exterioradas, por essa insignifância que me imobiliza. Nesses dias deseja-se parar de viver... e a morte não é a solução mais sensata para tal querer... O arremate certeiro seria uma palavra sentida que ultrapassasse os opostos insignificância e superioridade... qual a palavra que ata esse laço? Não sei.