quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Pertencer.


Cada um tem seu baú, o meu é bem pequeno, com madeira clara, meio desgastada, todo trançado, como se fosse uma cesta que trouxe flores. Sempre gostei de coisas pequenas, parece que elas carregam uma paz singela, o conforto e aconchego de um lar. No fundo desse baú achei um papel de contrato. Rasguei. Cortei os votos, as assinaturas e as testemunhas, afinal um negócio apoia-se naquelas letrinhas do papel. Na verdade o papel era meio encardido, coisa de tempo... raridade para poucos sobreviver a anos que contam as duas vidas geradas por meio dele. Olhei em volta ... tudo ainda estava lá. Decidi queimar o papel. Tudo ficou no lugar. Sabia que eu já soube de histórias que as coisas dissolvem? Isso é quando os fatos e o acordo é só teórico, aquela coisa forçada e calculada que me causa alergia. Essa matemática não sobrevive às coisas da vida. Mas com meu bauzinho foi diferente. Um cara que vive batucando me convenceu que é porque o acordo só foi assinado para encantar o que já era belo, louco e real. Me disse que as assinaturas que importavam eram só as do jardineiros que ficaram responsáveis por aguar aquela florzinha do amor dia após dia. Assinatura alheia não culminaria em construção alguma naquela caixa, talvez só em destruição. Na borda da caixa tinha um mapa, que cabia o mundo inteiro e espalhava cada coisa do baú em todo canto, mas mesmo assim os corações sobreviviam, continuando a bater compassados. Que Deus uniu, ( nasceram os filhos, partiram animais, pariram netos, chegaram outra bicharada...) e o homem... bom, o homem não deveria separar! Caramba Deus... tudo bem que o senhor me fez meio confusa, mas essa parte ouvi muito bem daquela estrela de onde vim!



No final das contas e das fases, eu-hippie, eu-skatista, eu-roqueira, eu-eu... e todos os outros que virão sempre escolhem voltar para esse baú e dentro dele nem um rótulo é necessário. Por que escolher um baú e não um casulo? Essa é fácil! Casulo é aquela coisa fechada, como um coma, uma semi-morte, que te evita a vida como um todo, tristezas e alegrias. O baú não. A tampa abre Deus, e te vomita na vida, dá injeções de ânimo e de repente você já está dando os primeiros passinhos rumo a tudo que pulsa fantasticamente cheio de dor e delícia, fora do baú. E daí que se você encontrar algo bom na curva , sorte sua! Certamente você desejará seguir em frente! Mas e se você achar uma coisa feia? Aí a coisa complica! Um casulo não se reconstrói uma vez rompido, a lagarta vira borboleta e pronto. Mas a tampa do baú fecha ... e abre... e tem aquele espelhinho no canto, sabe? Aquele que eu olho e vejo minha cara de menina, com cabelos curtos e pretos, sorrindo como quem está prestes a aprontar? De tudo que eu vi e vivi nesse tempo tenho saudades... era o esperado para uma canceriana cuspida... e só com meu baú posso voltar, mesmo com 18, 25, 50 anos... nesse tempo lindo, como uma máquina do tempo. Encontrei no fundo do baú um soldadinho de chumbo... foi o único príncipe que encontrei nessa vida. Lá fora não achei nada nem ninguém que parecesse pelo menos com a unha do meu homenzinho. Foi ele quem me ensinou a lutar contra meus dragões, pescar, encontrar paz nos livros, nos filmes e nos cantos dos pássaros. As mãos dele são gigantes, sempre maiores que as minhas me dão um colo de proteção inabalável. Agora o soldadinho envelheceu. Príncipes não deveriam envelhecer, isso não é justo! Como eu, a menina das mãos pequeninas, vou proteger ele, o homem das mãos gigantes? Nunca foi assim, Deus. E agora não sei como fazer. Do seu lado havia uma rainha, com lindos fios dourados e mutante como trocas de roupas. Ela, ao contrário dele, era mais real que ideal. Ou não, depende da sua lente de contato. A rainha toma da fonte da juventude, o tempo passa e ela fica mais jovem. Sabia que ela é linda e adora falar com o Senhor todo dia? Ela te visita sempre, adora cantar e eu soube por aí que ela se importa muito comigo. Agora ela vestiu uma roupa, que confesso que não lhe caiu bem. Preferi a tendência passada... aquele vestido-que-criava-o-bolo-delicioso-com-requeijão! Tá metida com umas falsas-realezas, e eu ando buscando seus olhos... o Senhor, que é conhecedor de todos os corações, me dá notícias deles? Na mesinha de madeira existem oito lugares e a mesa está sempre posta em ceias de Natal e almoços de domigo. Cada um senta-se com seu melhor sorriso, escolhido rigorosamente pelo comitê da memória. Do lado do soldado e da rainha tem aquele vagalume verde, que tece fios e luzes e mora perto das cachoeiras que saíram dos Seus dedos. Seu bum bum ilumina meu caminho inteiro... e tem aquela joaninha cacheada, vermelha e preta de teimosa e de flamengo... que cuida dos doentes... essa daí já é o sorriso mais bonito que eu conheço. Tem a Janis Joplin de voz gostosa, minha companheira de pilates e de sol... e a mini Janis Joplin do Cerrado. Achei também um bicho de bochechas fofas, que não sei se é urso ou cachorro, só sei que é meu maior e melhor sonho realizado, minha alegria de cada manhã. E por fim uma barbie, docinha e azeda, o glamour hollywoodiano e escandaloso que me faz gargalhar e enfeita a caixinha. Tenho tantas fotos coladas aqui. Tantos lugares colecionados... Ainda sobra espaço para o tempo que ainda me resta. E eu amo cada cantinho desse quadrado, até aquele arranhado ali e aquele aculá... Alguma coisa não tem anadado bem por aqui. Ouvi um terremoto ou boatos de uma epidemia contaminando meu relicário. Pra cá voltei rapidamente. Acho isso confuso porque foi por uma carta sua que me pus a caminhar por esse mundo como se ele fosse um segredo. Até que gosto dessa minha missão na vida. A coisa funciona como meu alimento. Doutor estou com náuseas, será que é fome? Como poderei caminhar com fome? Como minha força pode ser também minha fraqueza? Se o baú sumir, para onde vou voltar quando estiver cansada? E esse forro de mesa sujo, é pra quê?


A mão direita do canhoto. A aids do Cazuza. O whisky do alcóolatra. A diabets da infância. A orelha diferente por trás dos cabelos longos. Ando doendo, Deus. Como vício, doença, restrição,impotência e ponto fraco. Será que o Senhor poderia salvar meu baú? Amém!



- Out of luck, out of faith, loosing my memory, saving my face...

Um comentário:

primaverasdesetembro disse...

"..E que é difícil ser feliz."

Moça, o que falar do que vi, percebi e senti por aqui?
Esse bau que não é só teu, nem só meu...

Flores.